Filho de Músico... Contador de Histórias ele é

05/11/2016

Era um casarão comum no início do século passado. Nas suas salas de grandes janelas, as notas musicais transbordavam. Os ouvidos de menino recebiam sons que a alma jamais esqueceu. Piano, aprendeu sem nunca ter lido uma partitura.                                                                                  Por Sílvia Mello

Na sala do antigo casarão, remanescente do patrimônio da cidade ainda preservado, o piano de marca G. J. Vogel & Sohn permanece. Com mais de 90 anos vividos, Décio de Moura dedilha Eu sei que Vou te Amar, enquanto suas lembranças nos acodem como se os retratos pudessem falar.

Sobre o piano, nas imagens dos porta-retratos, as irmãs serão sempre moças. A beleza de Benedicta de Moura, que os deixou tão tragicamente na juventude, contrasta com a personalidade que emite a imagem de um dos maiores talentos femininos da família e da cidade: a pianista Hortência de Moura.

O semblante de Hypolito de Moura, o pai, de nome austero para um músico, é pleno de calma numa das molduras com entalhe, pendurada na parede, ao lado da imagem de sua mulher, como se ainda permanecessem ali, casados. Ele, de origem portuguesa, família já radicada na cidade de São Roque há gerações; ela, descendente de italianos, os Zerbini, entre outros, que chegaram à cidade ao final do século 19.

Músico amador na cidade, em sua juventude, Hypolito Martins de Moura era filho de Mariano Martins de Moura e Francisca Leopoldina de Jesus Moura. Nasceu em São Roque em 20 de Agosto de 1875, na antiga rua Direita, depois denominada rua Marechal Deodoro; casou-se com Arpalice Zerbini de Moura.

Primogênito, ele tinha seis irmãos: Manoel Martins de Moura, Rafael, Marcos, Fortunato, Lídia e Emiliana Justina Martins de Moura, esta última casada com Maurício de Oliveira, único filho reconhecido oficialmente por Antonio Joaquim da Rosa, o Barão de Piratininga, que era solteiro.

Iniciou sua carreira profissional por indicação do cunhado Maurício de Oliveira e do professor Júlio César de Oliveira, também vereador em São Roque, que o indicaram a ser assessor.  Posteriormente, por sua dedicação, segundo a família, através de nomeação do Presidente da República Manoel Ferraz de Campos Salles, em 22 de Agosto de 1902, passou a exercer a função de Coletor Federal. A Coletoria funcionava no casarão da rua Rui Barbosa, que se tornou residência da família.

Hypolito era apaixonado por música, tocava piano e violão. Sempre incentivou os filhos a estudarem música.

Seu nome figura entre os fundadores da Corporação Musical Liberdade, em 1º de Novembro de 1896. Dessa história, seu filho Décio não foi protagonista, mas conta com detalhes, o legado da corporação, história oral, herança de família. Entre os filhos mais novos, sempre aos cuidados da irmã Hortência, ele nasceu na década de 1920.

Lembra-se, quando menino, de ficar do lado de fora da janela, ouvindo o som do piano que, por toda vida, tocou de ouvido. Sem a pressão e o apelo do talento musical como sentido para a vida, a música, no entanto, marcou-o profundamente, como à vida de sua família.

Ainda existe o programa para o recital de piano de Benedicta de Moura que, adolescente, recebia aulas da professora Amelie Henn, de origem alemã. Também alemã é a marca do piano na sala, testemunha da benção que pairava sobre a família: o dom da música.

"Seu" Décio se recorda de que a irmã Hortência, antes de ser presenteada com o piano que ainda se encontra na sala, recusou dois deles, de igual origem, comprados pelo pai. Exigente, escolheu com cuidado o instrumento do qual tiraria sons por toda vida. Solteira, Hortência teria sido cortejada pelo escritor Mário de Andrade, quando o mundo ainda era pequeno e todos os artistas se encontravam.

São muitas as histórias de "seu" Décio, no ambiente que nos transporta para mais de um século atrás - a Banda Liberdade completaria 120 anos de fundação neste 1o. de Novembro. Nossa imaginação voa, como se saudosos estivéssemos de um tempo no qual não vivemos. Redescobrir, nas entrelinhas, a história dessa corporação musical é um desafio.

Mas, depois dos 90, "seu" Décio é feliz por morar no mesmo casarão, abrir suas grandes janelas, ornamentadas pela filha Belinha, para delas ver passar, numa Sexta-feira de final de mês, os seresteiros de hoje. E ouvir as mesmas melodias que o toque de seus instrumentos musicais insiste em eternizar.

Texto: Sílvia Mello

Imagens: 1 - Décio de Moura em sua casa na rua Rui Barbosa (2016), foto: Sílvia Mello; 2 - Hypolito de Moura, s/data, coleção particular; 3 - Benedicta de Moura, pianista, filha de Hypolito de Moura, s/data, coleção particular; 4/5 - Programa de recital de Benedicta de Moura, coleção particular; 6 - Hortência de Poura, pianista, filha de Hypolito de Moura, s/data, coleção particular; 7 - Casarão dos Moura, na rua Rui Barbosa (2016), foto: Sílvia Mello.

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